Entre os desejos e as suas realizações decorre toda a vida humana. O desejo, pela sua natureza, é sofrimento; a satisfação engendra bem depressa a saciedade. O alvo era ilusório, a posse rouba-lhe o seu atrativo; o desejo renasce sob uma forma nova, e com ele a necessidade; senão é o fastio, o vazio, o aborrecimento, inimigos mais violentos ainda do que a necessidade. - Quando o desejo e a satisfação se seguem em intervalos que não são nem demasiado longos nem demasiado curtos, o sofrimento, resultado comum de um de outro, desce ao mínimo: e essa é a vida mais feliz, visto que existem muitos outros momentos, que denominaríamos os mais belos da vida, alegrias que designaríamos as mais puras, mas elas roubam-nos ao mundo real e transformam-nos em espectadores desinteressados deste mundo: é o conhecimento puro, puro de todo querer, a fruição do belo, o verdadeiro prazer artístico, além disso, estas alegrias, para serem sentidas, pedem aptidões muito raras: elas são, portanto, permitidas a muito poucos, e, mesmo para estes, elas são como um sonho que passa; porém, eles devem essas alegrias a uma inteligência superior, que os torna acessíveis a muitas dores desconhecidas do vulgar mais grosseiro, e faz deles, em suma, solitários no meio de uma multidão totalmente diferente deles: assim se restabelece o equilíbrio.
(extraído de O mundo como vontade e representação - Arthur Schopenhauer)